31.5.06

 

Vitorino Bastos – Um Ídolo da Nossa Adolescência

Fui hoje desagradavelmente surpreendido com a notícia infausta do falecimento de um companheiro de escola, do período da adolescência, Vitorino Bastos.

Apesar de há muito lhe haver perdido o rasto, conservo ainda fartas recordações da sua presença, até pelo menos metade da década de 80, quando ainda frequentávamos a mesma barbearia, já então convertida em Salão de Cabeleireiro de Homens e Senhoras, ali ao fundo da Rua Laureano de Oliveira, perto do Apeadeiro dos Caminhos de Ferro, da então suburbana vila de Moscavide.

Mesmo depois de termos saído de Moscavide, continuámos a frequentar os cuidados do Cabeleireiro Martins, homem de mãos adestradas, com vários diplomas de prémios ganhos em concursos nacionais e internacionais expostos nas paredes do seu modernizado salão. A casa dos pais do Vitorino ficava quase defronte deste estabelecimento e ali o encontrava ainda nos anos 80.

Era ele o nosso Vitorino, moço bastante popular, em Moscavide, mesmo para os benfiquistas como eu, que com ele joguei futebol e andebol, nos anos 60, nos Campeonatos Escolares e nas partidinhas dos intervalos das aulas, na velha Escola Industrial Afonso Domingues, EIAD, de Marvila, umas vezes na sua equipa, outras como adversário.

Encontrávamo-lo também, já depois de interrompida a sua curta vida estudantil, nos finais dos anos 60, na pastelaria Rita, na Avenida de Moscavide, sempre muito festejado, obviamente, pelas exibições que fazia em Alvalade e pela aura de estrela que o cercava, embora sem nada que se assemelhasse ao exagero alienante que hoje se observa, quanto ao interesse pelo futebol.

Tinha um porte atlético de grande envergadura, logo aos 12-13 anos, o que contrastava com a nossa comum fragilidade, apesar de ser pouco mais velho que a maioria de nós, que com ele nos defrontávamos. Fez-se um homenzarrão muito cedo, enquanto nós fomos crescendo fisicamente, aos poucos, sem nunca chegarmos, contudo, nem lá perto, à sua notória robustez.

Era um portento de força, com um estilo muito próprio de jogar, com arranques impetuosos, variações de velocidade e remates fortíssimos. Todos o queriam sempre na equipa, porque ele, na verdade, valia por vários elementos.

Curiosamente, connosco não abusava muito da sua natural superioridade física. No futebol profissional, no entanto, tornou-se temido, porque não usava de muita cerimónia para impor a sua «vantagem competitiva».

Era, claramente, um dos nossos heróis de adolescência. Desde os treze anos que se integrara no Sporting Clube de Portugal, escolhido num ápice, pelo famoso Travassos, que, na altura, orientava os juvenis do clube de Alvalade.

Rapidamente enveredou pelo profissionalismo desportivo, encerrando a sua breve carreira estudantil. Outras fadas, para outra vida, o haviam fadado, que o haveriam de levar para Espanha, onde casaria e teria uma passagem de alguns anos de sucesso, no duro campeonato espanhol.

No curto apontamento da página do SCP, na internet, pareceu-me lá encontrar uma imprecisão de pormenor. Embora V. Bastos se tenha notabilizado como Defesa-Central, julgo que, no final da sua carreira de jogador, depois de ter regressado de Espanha, jogou ainda na equipa principal do SCP, mas no lugar de Defesa-Direito, uma vezes, outras, no de Quarto-Defesa e não sempre a Central, como lá se refere.

Isto é o que me diz a minha memória futebolística : razoável, até aos finais dos anos 70, princípios de 80, muito definhante, daí para cá, e cada vez menos predisposta a acompanhar um desporto que se mercantilizou desmedidamente, para lá do imaginável, destruindo os antigos laços de genuína paixão clubista, fenómeno que só a completa atmosfera de alienação, que à sua roda se gerou, impede os mais de o reconhecer.

Contra o que é meu hábito, no que respeita a temas de crónicas ou de artigos, aqui deixo hoje uma nota de profunda saudade para com uma estrela do futebol da minha geração.

À família de Vitorino Bastos, endereço as minhas sentidas condolências. Que o nosso ídolo de adolescência descanse em paz, tão cedo ele nos desaparece.

Guardemos, pois, de Vitorino Bastos, sobretudo os que pessoalmente o conheceram, com especial referência para os seus antigos companheiros de Escola, designadamente, os da nossa velha e querida Afonso Domingues, todas aquelas boas memórias de um já algo distante, mas sempre alegre e grato convívio.

AV_Lisboa, 31 de Maio de 2006


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Breve nota biográfica de Vitorino Bastos

- Vitorino Manuel Antunes Bastos era natural de Lisboa, onde nasceu a 4 de Julho de 1950. Foi aluno da Escola Industrial Afonso Domingues, nos anos lectivos de 1964/65 e 65/66.

- Fez a sua estreia na equipa principal do Sporting, em 1 de Janeiro de 1969, num jogo contra o Atlético Clube de Portugal, em Alvalade, que o SPC ganhou por 4-2, na época de 1968/69.

- Depois de três temporadas em Espanha, ao serviço do Saragoça, regressou ao seu clube de sempre em Portugal, o Sporting, clube que representou até ao fim da sua carreira de jogador, em 1983.

- Como jogador, foi campeão nacional nas épocas de 1973/74, 1979/80 e 1981/82. Venceu três Taças de Portugal nas épocas de 1972/73, 1973/74 e 1981/82 e uma Supertaça, na de 1981/82.

- Em nove temporadas, como jogador do Sporting, disputou 182 jogos e marcou um golo, num jogo contra o Varzim, na época de 1979/80, época em que o clube se sagrou campeão.

- Como Treinador de Futebol, destacou-se ao comando do Alverca, na época de 1994/95, levando esta equipa da II Divisão B à II de Honra. Foi posteriormente Treinador-Adjunto do SPC, integrado nas equipas técnicas de Augusto Inácio, Laszlo Boloni e Fernando Santos, ajudando ainda o clube na conquista de mais dois Campeonatos Nacionais (1999/2000 e 2001/2002), uma Taça de Portugal e uma Supertaça.

- Quando faleceu, a 30 de Maio de 2006, no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, fazia parte do Departamento de Recrutamento de Jogadores do Sporting Clube de Portugal, sendo um dos responsáveis pela observação dos atletas que o SPC mantém na situação de emprestados, ao serviço de outros clubes.

Comments:
“ Quando falo no esgotamento do comunismo, não me refiro ao futuro. É algo que está em marcha em muitas regiões do planeta. Numa boa parte do Terceiro Mundo e em alguns subúrbios da Europa, o comunismo deixou de funcionar, e já está em processo de desintegração. Depois do seu fim, virá o Paraíso!” – kitéria Bárbuda in “O Fim do Mal”, Revista “Espírito”, nº 34, 2006.

www.riapa.pt.to
 
Saudades dos que partem
Recordações de uma vida
Histórias vivenciadas
Momentos alegres e bons
Felicidade de ter o que recordar
Embora com o coração de luto.
Um abraço
 
15/06/06 - 11 h 27 min
Lamento o falecimento de seu amigo. Já perdi alguns, sei como dói. Dizem que uma das conseqüências de ficarmos com mais idade (eufemismo para "idosos", o que não é o seu caso...) é vermos os amigos morrerem. Que ele esteja com Deus.
Eu ia perguntar o que está achando dos jogos da Copa, se está feliz com o técnico Felipão (é isso?),etc., mas não tem cabimento.
MUITOS ABRAÇOS,
Bisbilhoteira.
 
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